VIH e SIDA: Conheça as diferenças

VIH e SIDA: Conheça as diferenças

Apesar do acesso mais facilitado à informação, continua a haver alguma confusão acerca do VIH e da SIDA. Com este artigo, espero ajudar a dissipar eventuais dúvidas e contribuir para uma melhor informação sobre cada uma delas.

Especialista em doenças infecciosas Hospital Lusíadas Lisboa

Pode ser fácil confundir o VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) e a SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida). Na verdade, são diagnósticos diferentes – a infeção por VIH pode conduzir a uma doença ou síndrome, condição conhecida como SIDA. O VIH é um vírus e a SIDA é a condição que pode decorrer da infeção por esse vírus. Assim, pode ter-se uma infeção por VIH sem adquirir SIDA, sendo muitas as pessoas com infeção por VIH que vivem durante anos sem desenvolver SIDA.
A SIDA ocorre quando o VIH condiciona danos importantes ou severos na imunidade (sistema imunológico), e é uma condição complexa com sintomas que variam de doente para doente. Os sintomas da SIDA estão relacionados com as infeções que um doente pode apresentar como consequência de um sistema imunológico debilitado e, consequentemente, incapaz de combater outras infeções, ao contrário do que acontece em pessoas saudáveis. Estas podem incluir a tuberculose, a pneumonia, outras infeções e, ainda, certos tipos de neoplasias (cancro).

Existem grupos de risco? Quais?
O VIH é transmitido de uma pessoa para outra através da troca de fluídos corporais. Mais comumente, a infeção é transmitida através de relações sexuais desprotegidas ou através da utilização de agulhas contaminadas.
Menos frequentemente, pode ocorrer através de uma transfusão de sangue contaminado ou por transmissão vertical: uma mãe infetada pode transmitir a infeção ao filho durante a gravidez, no período perinatal ou durante o período de aleitamento materno.
Basicamente, qualquer pessoa pode contrair infeção por VIH. Da mesma forma que os consumidores de drogas injetadas estão em grande risco, consequente às práticas relacionadas com o uso de drogas, qualquer pessoa que se envolva em relações sexuais sem proteção (por exemplo: sexo desprotegido com um parceiro infetado) pode ser exposta à infeção por VIH. Não existem, em sentido estrito, grupos de risco pois todos os grupos são afetados pelo VIH, embora alguns sejam mais vulneráveis do que outros.
Nesse sentido, os homens que fazem sexo com homens são a população mais severamente afetada. Por exemplo, nos Estados Unidos da América, estas pessoas correspondem a cerca de 2% da população, e a mais de metade das novas infeções por VIH. À semelhança do grupo dos homens que fazem sexo com homens, as pessoas dentro de populações de grupos raciais/étnicos apresentam maiores taxas de infeção. Embora os fatores de risco para a infeção por VIH sejam os mesmos para todos, estes grupos apresentam maiores taxas de infeção por VIH nestas comunidades, aumentando assim o risco de novas infeções.

Como podemos prevenir e contribuir para a prevenção?
As intervenções comportamentais visam reduzir o risco de transmissão do VIH, abordando comportamentos de risco. Estas intervenções podem passar por procurar reduzir o número de parceiros sexuais que as pessoas têm, melhorar a adesão ao tratamento entre as pessoas que vivem com o VIH, aumentar o uso de agulhas limpas entre as pessoas que injetam drogas, através de programas de trocas de seringas, e promover o aumento do uso correto e consistente de preservativos. Até à data, este tipo de intervenção tem provado ser o que apresenta melhores resultados.
As intervenções biomédicas usam uma combinação de abordagens médicas e clínicas para reduzir a transmissão do VIH. Exemplo de uma intervenção biomédica, a circuncisão, é um procedimento médico simples que tem demonstrado reduzir o risco de transmissão do VIH em cerca de 60%, durante sexo heterossexual desprotegido. Esta medida foi testada em países de elevada prevalência de infeção na região de África. A fim de serem eficazes, as intervenções biomédicas são raramente executadas de forma independente e são muitas vezes utilizadas em conjunto com intervenções comportamentais.
Das intervenções biomédicas destacam-se ainda: a terapêutica antirretrovírica para a prevenção da transmissão mãe-filho (PTV), a instituição de profilaxia pós-exposição (PEP), os programas de aconselhamento e rastreio voluntário, o rastreio e tratamento das outras infeções sexualmente transmissíveis, os programas de substituição de opiáceos e também a eventual instituição de profilaxia pré-exposição.

Qual é o objetivo do tratamento?
Com os tratamentos atuais para a infeção pelo VIH, é possível viver durante anos, e mesmo décadas, sem manifestações da doença e mantendo uma boa qualidade vida, sendo estes os objetivos últimos desse mesmo tratamento.

Os objetivos principais do tratamento com fármacos antirretrovíricos são:
– Reduzir a morbidade associada ao VIH e prolongar a duração e a qualidade de vida
– Suprimir a carga vírica (ou seja, manter o vírus não detetável no sangue)
– Restaurar e preservar a função imunológica
– Prevenir a transmissão do VIH
– Diminuir a inflamação e ativação imunológica, facto importante, nomeadamente, para a diminuição de lesão cardiovascular

O que mudou nos últimos 20 anos:
Os esforços sem precedentes nos campos de biologia, farmacologia e cuidados clínicos têm contribuído para transformar progressivamente a infeção pelo VIH de uma condição inevitavelmente fatal numa doença crónica, pelo menos nos países onde as pessoas infetadas pelo VIH têm acesso à terapêutica antirretrovírica que possibilita um controlo marcado e sustentada da replicação vírica. No entanto, uma vez que os tratamentos atualmente utilizados não são capazes de erradicar o VIH, o tratamento deve ser prolongado ao longo da vida.
Um dos maiores problemas refere-se à heterogeneidade do padrão de cuidados a nível mundial. Na verdade, o acesso ao diagnóstico da infeção por VIH, o tratamento e os cuidados, são seriamente limitados nas áreas geográficas mais afetadas, como é o caso de África que comporta cerca de 70% do total de casos da infeção. Este é mesmo dos maiores desafios com que as instituições internacionais são confrontadas.

A saber
Para uma perspetiva de futuro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu um objetivo até 2020, designado 90-90-90. Assim, de acordo com o planeado, em 2020, 90% das pessoas com infeção por VIH devem estar diagnosticadas. Destas, 90% devem estar sob terapêutica antirretrovírica e 90% devem apresentar supressão vírica.

 

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