Tudo o que sempre quis saber sobre doença bipolar

Tudo o que sempre quis saber sobre doença bipolar

A doença bipolar afeta cerca de 60 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais 200 mil são portuguesas. Por não existir uma causa única para esta doença e pelo facto de muitas pessoas desenvolverem, em simultâneo, outras patologias, existe alguma confusão acerca desta doença e das pessoas afetadas por ela.

Médica Psiquiatra Coordenadora da Unidade de Psiquiatria e Psicologia Hospital Lusíadas Lisboa

A doença bipolar, antes designada por Psicose Maníaco Depressiva, é uma doença mental caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão, «mania» ou mistas, isto é, alternando rapidamente entre mania e depressão. Qualquer um dos tipos de crise pode predominar numa mesma pessoa sendo a sua frequência bastante variável. As crises podem ser graves, moderadas ou leves. As alterações de humor que derivam da bipolaridade dão, muitas vezes, origem a problemas com a gestão do quotidiano, podem arruinar relacionamentos pessoais e até levar a tentativas de suicídio.
Os sintomas da doença bipolar dependem muito da fase da doença. Um episódio maníaco caracteriza-se por um humor expansivo, eufórico ou irritável. Nas fases iniciais da crise a pessoa afetada pode sentir-se mais alegre, sociável, ativa, faladora, autoconfiante, inteligente e criativa. Os sintomas psicóticos na doença bipolar refletem o estado de humor. Por exemplo, num episódio maníaco o doente acredita que tem poderes especiais ou é um profeta enviado por Deus. Num episódio depressivo, o doente pode sentir-se extremamente culpado por algo que acredita que fez.


Diagnosticar a patologia
O diagnóstico de doença bipolar é exclusivamente clínico e assenta na elaboração de uma história clínica completa tendo em conta os sintomas atuais e os progressos, a personalidade prévia e os antecedentes familiares.
A doença bipolar afeta cerca de 60 milhões de pessoas em todo o mundo e encontra-se entra as 20 principais causas de incapacidade. Em Portugal, cerca de 200 mil pessoas sofrem de doença bipolar. Estima-se que até cerca de 2% dos europeus virão a sofrer de doença bipolar num dado momento da sua vida e, destes, metade acabarão por desenvolver doença bipolar tipo I. A doença bipolar tipo I ocorre com a mesma frequência nos homens e nas mulheres, enquanto a doença bipolar tipo II é mais comum nas mulheres. Não existe nenhuma associação entre a raça/etnia, estrato sócio-económico, naturalidade ou local de residência (rural/urbano), contudo, a prevalência de doença bipolar é superior nos indivíduos que vivem sozinhos.
O risco de desenvolver esta patologia é mais elevado no final da adolescência ou no início da idade adulta, sendo que, pelo menos, metade dos casos surgem antes dos 25 anos de idade.
As pessoas bipolares encontram-se em risco de desenvolver também outras doenças em simultâneo (co-morbilidade). Um estudo recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que 2/3 das pessoas com doença bipolar também sofriam de perturbações de humor e ansiedade, e mais de 1/3 tinham também problemas de abuso de substâncias. Apesar das sérias consequências, calcula-se que nem 50% das pessoas afetadas pela doença recebem o tratamento adequado.

Causas
Não existe uma causa única para a doença bipolar mas, acredita-se que tanto fatores biológicos, como psicológicos e sociais podem contribuir para o seu desenvolvimento, levando a alterações neuroquímicas no cérebro. Entre 80 e 90% dos indivíduos com doença bipolar têm um familiar com esta patologia ou que sofre de depressão. Os fatores ambientais como o stresse oxidativo, perturbações do sono, abuso de álcool e drogas também têm grande influência e podem desencadear episódios em indivíduos vulneráveis.

Tratamento
Não existe cura para a doença bipolar, contudo, há forma de controlar os seus sintomas e garantir que os doentes têm mais qualidade de vida. Para isso, é fundamental que o diagnóstico seja feito e o tratamento iniciado assim que possível. Só assim será possível que a pessoa bipolar volte a conseguir controlar as suas alterações de humor e os sintomas a elas associados.
O tratamento para a bipolaridade tem de responder com eficácia tanto aos episódios maníacos como aos depressivos, mas também aos momentos de humor misto e aos ciclos rápidos. Fundamental é também ser capaz de evitar recaídas. O tratamento da doença bipolar inclui, habitualmente, a utilização de fármacos estabilizadores de humor e, por vezes, de antidepressivos e de antipsicóticos. Em situações resistentes a eletroconvulsivoterapia é uma opção terapêutica que deve ser tida em conta. O acompanhamento psicológico individual (com particular enfoque na terapia cognitivo-comportamental) ou familiar, é essencial.

COM A ELEVAÇÃO PROGRESSIVA
 DO HUMOR E A ACELERAÇÃO PSÍQUICA, PODEM SURGIR ALGUNS OU TODOS OS SEGUINTES SINTOMAS:
– Irritabilidade extrema
– Alterações emocionais súbitas e imprevisíveis, com aceleração do pensamento e do débito do discurso, e incapacidade de manter um discurso focado num só tema
– Reação excessiva a estímulos, interpretação errada de acontecimentos e irritabilidade fácil
– Aumento de interesse em diversas e novas atividades, gastos excessivos, dívidas e ofertas exageradas
– Grandiosidade
– Sente-se melhor e mais poderoso do que os outros
– Energia excessiva com hiperatividade
– Diminuição da necessidade de dormir
– Aumento do desejo sexual, comportamento desinibido e, por vezes, de risco
– Incapacidade de aceitar que está doente, recusando apoio médico
– Abuso de álcool e de outras substâncias

OS EPISÓDIOS DEPRESSIVOS CARACTERIZAM-SE FUNDAMENTALMENTE POR TRISTEZA E DESESPERANÇA. NO ENTANTO, SURGEM OUTROS SINTOMAS DURANTE ESTA FASE DA DOENÇA:
– Pensamentos negativos permanentes e persistentes, e incapacidade para os afastar
– Diminuição grave da autoestima
– Sentimentos de inutilidade, desesperança e culpabilidade
– Lentificação do pensamento, dificuldades na concentração e memória e incapacidade na tomada de decisões
– Perda de interesse nas atividades que antes davam prazer (trabalho, hobbies, convívio social, entre outros)
– Preocupação excessiva com queixas físicas como, por exemplo, obstipação
– Agitação e inquietação ou perda de energia, cansaço e inação
– Alterações de apetite e de peso
– Alterações do sono: Insónia ou hipersónia
– Diminuição do desejo sexual
– Choro fácil ou incapacidade de o fazer
– Ideias de morte, de suicídio e tentativas de suicídio
– Uso excessivo de bebidas alcoólicas ou de outras substâncias

Mudar mentalidades
A ideia de doença mental, na opinião pública, é habitualmente confusa e pouco correta. Considera-se a doença mental qualitativamente diferente das doenças físicas, desvalorizam-se alguns sintomas, temem-se outros e atribui-se um grau de incurabilidade a grande parte dos doentes psiquiátricos. A literacia em psiquiatria e, particularmente, em relação à doença bipolar, permite que estas ideias preconcebidas sejam ultrapassadas facilitando, assim, o reconhecimento da doença tanto ao próprio, como aos que com ele convivem. Isto, como é óbvio, possibilita uma maior ajuda a quem necessita e permite um tratamento médico atempado e adequado, bem como uma visão humana e solidária da doença.

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