Regresse à rotina… sem dramas!

Regresse à rotina… sem dramas!

Das expetativas demasiado elevadas em relação às férias que ficam aquém daquilo que idealizou, ao regresso ao trabalho que é sempre mais cedo do que realmente gostaria, siga as dicas para regressar de férias sem stresse.

Psicóloga Clínica Academia de Psicologia da Criança e da Família

Todos os anos é a mesma coisa: não só passamos a maior parte do tempo a sonhar com as férias, como somos bombardeados com anúncios de famílias perfeitas e felizes a passear em ilhas paradisíacas. E como se não bastasse, ainda ouvimos os relatos dos nossos colegas e amigos sobre aquelas que foram “as férias mais perfeitas de todos os tempos”. Não é sempre assim?

Inconscientemente, criamos expetativas e quase nos sentimos obrigados a ter umas férias perfeitas. Idealizamos férias exemplares, construímos planos e traçamos objetivos na esperança de termos um período de repouso capaz de reconstruir a nossa vida e dar novo alento para mais um longo período de trabalho.

Se as férias não estiverem à altura das expetativas criadas, começamos de imediato a questionar a qualidade das nossas relações e das nossas vidas. Para piorar as coisas, o regresso ao trabalho é doloroso e deixa-nos deprimimos. Afinal, as férias que deviam permitir descansar, “limpar” a cabeça, baixar os níveis de stresse e repor as forças para retomar o trabalho com mais energia e ânimo, foram tudo menos isso. O resultado: ficamos tristes e deprimidos!

O drama do regresso à rotina, aquilo a que os ingleses chamam de holiday blues pode, contudo, ser gerido com a aplicação de algumas técnicas e princípios que tornam o regresso ao trabalho menos “doloroso”.

Reconhecer que é necessário um período de transição
A primeira coisa a fazer para tornar o regresso ao trabalho e à rotina menos difíceis passa por reconhecer que é necessário um período de transição. Da mesma forma que quando começamos as férias não nos libertamos de imediato das preocupações do trabalho, quando regressamos também necessitamos de tempo para retomar a rotina. Este período começa uns dias antes de as férias terminarem e dura até uns dias após o início do trabalho. É natural sentirmo-nos algo tristes quando regressamos pois há um sentimento de perda. De perda de liberdade na gestão dos horários e das obrigações. É igualmente comum surgirem sintomas de sono, cansaço, irritabilidade, problemas de concentração, alterações no apetite e, lá está, alguma tristeza.

Que tal retomar a sua rotina antes de ter de voltar a trabalhar? Experimente regressar de viagem alguns dias antes da data de regresso ao trabalho. Aproveite para organizar a casa, lavar a roupa, ir ao supermercado. Tente ir para a cama no horário do costume e acordar cedo. Dormir um pouco mais é o que todos queremos nas férias, mas é preciso criar estratégias para retomar os ciclos de sono habituais progressivamente.

Se esteve a viajar dê algum tempo para organizar a roupa e colocar tudo em ordem e repor o jet lag.
Verifique o correio eletrónico porque pode ajudá–lo a não sentir tanto o regresso e a dissipar aquela sensação de que o escritório está a desmantelar-se sem si. Manter algum contacto com o que se passa fará com que o regresso à realidade não custe tanto. Quando retomar o trabalho, tente não marcar reuniões logo para o primeiro dia, nem regressar a casa muito tarde. O corpo e, sobretudo, a mente, necessitam de algum tempo para se adaptarem à realidade.

Um ou dois serões no seu local de trabalho na primeira semana e é fácil perceber por que razão, na quarta-feira à tarde, as pessoas já dizem que as férias que ainda agora acabaram parecem uma memória distante.

Capitalize as suas férias
Partilhe com os amigos e familiares os bons momentos que teve. Se passou as férias com amigos ou se fez novos amigos, mantenha o contacto e recorde em conjunto as férias que tiveram. Já agora, aproveite e comece a planear as próximas férias!

No fundo, ganhe consciência de que as férias não têm necessariamente de acabar no último dia que marcou para elas porque podem prolongar-se na sua memória. Afinal, teve a possibilidade e a sorte de vivenciar experiências que antes das férias não faziam parte da sua vida e é importante manter vivas essas recordações.

Existem inúmeras formas de o fazer: Se tirou fotografias, fez vídeos ou comprou lembranças, pelo simples facto de os revisitar vai facilitar o processo de sedimentação destas recordações. Trabalhe o material procurando formatos e formas que possam facilitar a sua visualização e partilha.

Procure criar uma “ponte” entre a cultura do país que visitou e a sua. Por exemplo, se apreciou uma determinada comida estrangeira, compre um livro de culinária que cubra esse tipo de comida e comece a praticar em casa essas receitas que tanto apreciou.

Podemos trazer culturas de outros países de volta às nossas vidas de inúmeras maneiras. Através da dança, de roupas, de filmes, das redes sociais ou até mesmo escrevendo pequenas histórias sobre as férias. Se tirar tempo para saborear as suas memórias, não só prolongará os benefícios positivos da viagem, como vai lembrar-se delas por muito mais tempo.

Introduza pequenas mudanças na sua vida
Aproveite as boas experiências das férias para introduzir pequenas mudanças na sua vida. Um dos motivos para nos sentimos tristes e deprimidos depois das férias é a necessidade de querermos mudanças radicais nas nossas vidas que agora, depois das férias maravilhosas, nos parecem tão aborrecidas.

Seria um erro tentar introduzir cegamente todas as novas experiências vivenciadas durante as férias. Seja seletivo. Identifique aqueles aspetos que fizeram a diferença e que gostaria de ver introduzi- dos no seu dia a dia. Por exemplo, tente viver com menos. Frequentemente apercebemo-nos de que podemos passar momentos muito agradáveis sem as coisas que antes nos pareciam imprescindíveis.

Damos connosco a olhar para aquela mala cheia de roupa que nem sequer vestimos, mas que não nos impediu de sermos felizes. Podemos utilizar o telemóvel e a internet com mais parcimónia. Quando viajamos, utilizamos o telemóvel e a internet para nos mantermos informados e para assegurarmos que nada de mau se passa enquanto estamos ausentes. Tirando isso, não passamos o tempo na internet ou a falar ao telemóvel tempos sem fim. E não fomos menos felizes por causa disso. Antes pelo contrário. Passemos, pois, menos tempo ligados à internet e utilizemos esse tempo para nos ligarmos às pessoas, principalmente àquelas de quem gostamos, aos lugares e aos acontecimentos que vamos vivenciando.

Vejamos televisão porque precisamos de obter alguma informação ou ver um programa específico. Não para passar o tempo. Não faria sentido ir de férias e passarmos todo o tempo sentados a ver televisão. Aproveitemos então para alterar os nossos hábitos em relação à televisão desligando-a quando o programa acaba ou ligando-a somente quando pretendemos ver uma série ou um programa específico.

Aproveitemos para mudar a nossa aparência ou a nossa rotina ligada à saúde. Muitas vezes voltamos de férias rejuvenescidos, mais calmos e felizes. Por que não alterar as nossas rotinas para introduzir as pequenas mudanças que contribuíram para esses benefícios? Que tal passarmos a ter sonos mais prolongados ou realizarmos coisas que nos fazem felizes e que nos dão a sensação de quebrar a rotina como, por exemplo, uma massagem, um jogo de ténis ou um passeio de bicicleta?

Encare a vida com uma nova perspetiva
Aproveite para adotar novas atitudes perante os pequenos contratempos do dia a dia. Se há aspectos da nossa vida que não dependem de nós, que não temos o poder de influenciar ou mudar, então não gastemos tempo e energia a lutar contra eles.

As situações e o contexto em que estamos não são perfeitos, as pessoas não são todas como nós queríamos que fossem, o mundo não é perfeito. As filas de trânsito, os horários, o chefe e os colegas mal dispostos, o acordar cedo, os impostos, e muito mais, são coisas que vão continuar a existir quer queiramos quer não. Por exemplo, em vez de passarmos o tempo a reclamar com o trânsito quando vamos para o trabalho, aproveite e relaxe: ponha o seu CD preferido, ouça programas de rádio divertidos, faça uma playlist das músicas que mais gosta e usufrua do tempo da viagem. Afinal de contas, não vai poder colocar asas no carro, nem bom senso na cabeça dos automobilistas. Mas pode, isso sim, alterar a forma como vê os problemas que vão surgindo diariamente.

O segredo está em não gastar muito tempo com situações e emoções negativas. Trate-as como devem ser tratadas: sem dramatismo, sem muito teatro, sem precisar de ser a personagem de quem se tem de ter pena. Utilize o sentido de humor e sorria mais. Habitue-se a questionar: “o que é que está ao meu alcance aqui e agora para ficar melhor? Que pensamentos posso ter neste momento para me sentir menos stressado?”.

O contrário das situações serem perfeitas, não é serem logo muito más ou horríveis. Pense que existem outras opções – situações péssimas, muito más, más, mais ou menos más, mais ou menos boas, boas, muito boas, excelentes. Muitas vezes, o nosso pensamento diverge entre uma situação excelente para o péssimo. O mundo não é “branco e preto”. Ele tem uma riqueza extraordinária de tons intermédios. Já pensou em transformar as energias negativas que desperdiça a tentar mudar o que está fora do seu alcance, em energias positivas, investindo-as em si, em sorrisos, em boa disposição e em coisas que gosta de fazer para si e para os seus? Sejamos eficientes na forma como gastamos a nossa energia. Canalizemo-la para aqueles que amamos de facto e para quem deveríamos ser as melhores pessoas do mundo. E muitas vezes não somos porque chegamos extenuados a casa a tentar mudar o que não é possível mudar. Priorize. Seja melhor pessoa. Primeiro consigo, pois se não estivermos bem connosco não estaremos bem com os outros, depois para aqueles de quem mais gosta, de seguida para as pessoas que vê diariamente e interagem consigo e, finalmente e por último, para os outros que não conhece.

Nenhuma das técnicas resultou? Então, siga estas!
Continua deprimido e sem forças para regressar à rotina? As férias não foram a maravilha que imaginou e que os cartazes da família feliz lhe prometeram? Talvez o problema não seja das férias nem do drama do regresso à rotina, mas da vida que leva. Talvez tenha tomado consciência da infelicidade que sente.

Se o trabalho não o motiva, se a comunicação e o amor no seio da família já não são o que eram, se se afastou dos amigos e se isolou, então não será o escape que as férias proporcionam que vai resolver o seu problema. Se o regresso dói porque representa o voltar à vida da qual procurou afastar-se, pondere fazer mudanças mais radicais na sua vida. Pode ser a oportunidade de uma vida. Mas não se precipite. Dê algum tempo antes de tomar grandes decisões. Talvez seja uma boa ideia esperar alguns dias antes de se despedir do emprego, acabar o namoro ou mudar de casa. Procure ajuda profissional que facilitará a transição para uma vida mais feliz.

 

 

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