Envelhecer com VIH

Envelhecer com VIH

Estudo “O Impacto do Envelhecimento nas Pessoas com VIH – Perspetivas Presentes e Desafios Futuros”

No âmbito das comemorações do Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, o Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (UL) e o Centro de Estudos Avançados da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa (FEUCP), com o apoio da Gilead, apresentaram as conclusões de um estudo que teve como objetivo avaliar o impacto do envelhecimento nas pessoas infetadas por VIH, nos próximos 20 anos.

No dia em que se assinala o Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, foram apresentadas as conclusões do estudo  “O Impacto do Envelhecimento nas Pessoas com VIH – Perspetivas Presentes e Desafios Futuros”, realizado pelo Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (UL) e pelo Centro de Estudos Avançados da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa (FEUCP), com o apoio da Gilead.

O estudo, cujo objetivo passa por avaliar o impacto do envelhecimento nas pessoas infetadas por VIH nos próximos 20 anos, com caracterização epidemiológica e estimativa dos impactos do envelhecimento nos níveis de saúde e na morbilidade e mortalidade desta população, também propõe iniciativas para uma melhor gestão da doença.

Segundo António Vaz Carneiro, coordenador e um dos autores do estudo, “têm vindo a registar-se tendências crescentes na prevalência do VIH entre pessoas com idade igual ou superior a 50 anos: uma realidade confirmada pelos resultados de estudos realizados recentemente que mostram que em todo o mundo, mais de 4.2 milhões de pessoas infetadas pelo VIH (PVIH) têm mais de 50 anos de idade, e 26% do total terá mais de 70 anos”.

Mas, as conclusões obtidas com este estudo não se ficam por aqui e o especialista refere-as: “Em Portugal, estimativas da evolução da prevalência por grupo etário revelam um cenário preocupante: segundo o modelo que utilizámos, a proporção de PVIH com 50 e mais anos de idade aumentará dramaticamente ao longo dos próximos anos de 39% em 2015, para cerca de 80% em 2037. Ao contrário do que acontecia nos primeiros anos da pandemia, a população mais jovem registará dentro de 20 anos uma prevalência reduzida, com o grupo de indivíduos até 29 anos a representarem apenas 2% do número total e o dos da faixa etária entre os 30 e os 49 anos de idade, 18%”.

VIH – De doença fatal a doença crónica
À medida que foram disponibilizados novos e mais eficazes medicamentos antirretrovíricos, a infeção por VIH deixou de ser fatal para ser uma doença crónica, aumentando a esperança média de vida dos doentes, tornando-a equiparada à da população em geral, e reduzindo a taxa de mortalidade das PVIH, especialmente nos países desenvolvidos.

Mas, tal como houve um aumento da esperança de vida das PVIH, houve também um aumento das comorbilidades presentes na população em geral, só que em formas mais agravadas. E António Vaz Carneiro explica o que aconteceu: “Estas pessoas envelhecem como o resto da população, desenvolvendo as mesmas comorbilidades que marcam a nossa população idosa, com uma agravante: não só surgem mais cedo, como há um aumento significativo do risco dessas comorbilidades relacionadas com a idade nas PVIH, incluindo doença cardiovascular, doença neurocognitiva grave, doença renal crónica, doença hepática crónica e fraturas osteoporóticas”.

Há ainda casos em que as estimativas se situam muito acima daquilo que poderia ser considerado razoável. É o caso da osteoporose, cuja prevalência nas mulheres com VIH era, em 2015, de 16.5% e que, dentro de 20 anos, aumentará mais de 150%, para 40.8%. No mesmo patamar estão os acidentes cerebrovasculares, que aumentarão, nos homens, de 80 para 222 eventos/ano em duas décadas e, nas mulheres, de 25 para 61 eventos/ano, o que corresponde a um crescimento da sua incidência superior a 160%.

O envelhecimento das PVIH também acarreta riscos acrescidos no que respeita às doenças oncológicas. De acordo com os estudos analisados, o número de novos casos de carcinoma anal em PVIH irá aumentar entre 2015 e 2037 de 6 para 15 casos/ano nos homens e, de 3 para 8 casos/ano nas mulheres, que corresponde a uma taxa de crescimento em número absoluto de casos nos próximos 20 anos de cerca de 250%.

O linfoma não-Hodgkin é a única comorbilidade oncológica que apresenta uma tendência decrescente no horizonte temporal avaliado. Uma situação explicada com o facto de esta condição apresentar maior incidência em grupos etários mais jovens, pelo que com o envelhecimento previsto da população infetada, a incidência apresentará, naturalmente, uma tendência decrescente.

Desafios
De acordo com este estudo, o problema é, essencialmente, o facto de o sistema de Saúde não estar preparado para fazer face aos desafios que se apresentam nesta população particular. Para mudar esta situação, é necessário que o sistema mude. E, para isso acontecer, o estudo refere que temos de organizar os serviços de saúde a prestar às PVIH, mais velhas ou mais novas, o que irá requerer atenção e especialização em múltiplos domínios do sistema de saúde e seus responsáveis. Isto porque, tal como refere Vaz Carneiro, “o local natural para tratar de doenças crónicas, riscos de saúde, e aumento de incidência de doença são os Cuidados de Saúde Primários e não os hospitais como hoje acontece relativamente às pessoas com infeção por VIH/SIDA”. E o especialista conclui: “A somar a tudo isto, verificar-se-á, nestes doentes, uma menor qualidade de vida e o isolamento social por estigma, que algumas das PVIH apresentam, o que condiciona o seu apoio regular. Sem suportes sociais funcionais a partir dos quais se possam obter cuidados e assistência, esta população buscará apoios mais formais num período de reduzidos recursos económicos. Desta forma, estes doentes serão relegados em idades precoces para serviços de cuidados de saúde domiciliários onerosos, assim como para cuidados continuados comunitários.”

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