Autismo ou Autismos?

Autismo ou Autismos?

Hoje, dia 2 de abril, assinala-se o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo

Ao contrário do que acontece com outras condições neurológicas, no autismo não existe um marcador biológico específico que o identifique. Por essa razão, não só os diagnósticos são muitas vezes tardios, como não são raras as vezes em que é confundido com outras doenças.

Licenciada em Educação de Infância e em Psicologia da Educação e Reabilitação

A Perturbação do Espectro do Autismo é apresentada como uma das problemáticas atuais mais discutidas e, simultaneamente, mais difíceis de especificar pela diversidade de intensidade e apresentação sintomatológica com que se manifesta em cada pessoa, independentemente da faixa etária. A dificuldade, no entanto, é ainda maior quando surge associada a outra patologia ou, ainda, quando determinadas características, muitas vezes consideradas específicas – ou até mesmo a ausência destas mesmas características – no quadro autístico, não se manifestam explicitamente levando a confusões de diagnóstico e a dificuldades manifestas para terapeutas e famílias ao nível do plano de tratamento e intervenção.



Perceber o autismo
Numa linguagem clara e simples, podemos definir o autismo como uma perturbação do neuro-desenvolvimento que provoca no ser humano, a nível desenvolvimental, danos significativos e de caráter permanente, em áreas essenciais para uma adequada funcionalidade na pessoa autista. Esses comprometimentos ou danos refletem-se na (in)capacidade de interação social/ comunicação (verbal e não verbal)/ linguagem (com ausência/presença de oralidade) e comportamento (atividades e interesses).
A intensidade e a severidade com que esses comportamentos surgem e se manifestam também são decisivos para entender o potencial da pessoa autista para progredir e aprender a obter uma maior funcionalidade e adequação às necessidades diárias em prol de um desenvolvimento mais harmonioso e equilibrado. É fundamental perceber que a perturbação do espectro do autismo é uma síndrome de etiologias e múltiplas causas em que a pessoa apresenta comprometimentos globais do desenvolvimento nas áreas já identificadas, com mais ou menos características e especificidades do quadro autístico, assim como mais ou menos agravamento desse mesmo quadro resultante, muitas vezes, da ausência ou insuficiente estimulação ambiental e ajustada às reais necessidades da pessoa com a perturbação do espectro do autismo (PEA).
Quando falamos de autismo estamos a falar de uma patologia, muitas vezes, heterogénia no que concerne às causas, surgindo dentro de um espectro. Por isso, não pode, nem deve, ser definido como uma doença. Em vez disso, o autismo deve ser definido como uma forma ou condição de vida com especificidades e manifestações mais ou menos vincadas e comprometedoras para o dia a dia da pessoa afetada.

Fazer o diagnóstico
Para diagnosticarmos uma pessoa com autismo devemos ter o cuidado de perceber se tem ou não défice sensorial, alguma outra patologia de base que leve à manifestação de características similares às existentes na pessoa com a perturbação do espectro autista, se existe uma questão maturacional de base, biológica, emocional ou outra.
Caso assim ocorra, estaremos perante uma situação de perturbação do desenvolvimento com características autísticas e não propriamente de autismo. Uma intervenção ajustada incidindo nessas características, fruto de outras problemáticas (défices crónicos, congénitos e sindrómicos), são possíveis, muitas vezes, e até, de uma forma mais rápida de resolver, o que não acontece com o autismo propriamente dito e refletido neste enquadramento.
Por isso, a necessidade de entendermos se estamos a falar de autismo ou autismos. Estes últimos, frequentemente, são os que estão presentes em outras patologias ou vice-versa, pela proximidade da sintomatologia e da manifestação comportamental como, por exemplo, na deficiência mental, na esquizofrenia, nas patologias comórbidas como nos transtornos de fobia social, nos transtornos de ansiedade, no transtorno bipolar, nos transtornos de humor, no transtorno obsessivo compulsivo, nos transtornos disruptivos como a hiperatividade e défice de atenção (TDAH), o transtorno opositor desafiador. O conhecimento é emergente para que, cada vez mais, profissionais e famílias atuem em conformidade com a(s) realidade(s) do autismo no mundo de hoje.

SOBRE A DRA. NORA ALMEIDA CAVACO
É licenciada em Educação de Infância e em Psicologia da Educação e Reabilitação, Mestre em Práticas Educativas e em Psicologia Educacional na Especialidade das Necessidades Educativas Especiais, Pós-graduada em Neuropsicologia e Demências, e Doutorada em Educação Infantil e Familiar, Intervenção e Desenvolvimento Psicopedagógico.
Docente universitária na área da Educação Especial, escreveu os livros “O Profissional e a Educação Especial – uma abordagem sobre o autismo” e ainda “O meu melhor amigo… é autista”. Este último, baseado numa história verídica sobre um jovem que gritava dentro de si para o deixarem voar e ser feliz, e uma jovem que encontrou nele a verdade e, nas suas diferenças, o equilíbrio! Dois mundos aparentemente distantes diluíram-se num único mundo, fruto de uma amizade verdadeira.

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