Ajude o seu filho na escola

Ajude o seu filho na escola

Os pais desempenham um papel muito importante na vida escolar dos filhos, independentemente de estes estarem no primeiro ou no quinto ano. O ano letivo começou há muito pouco tempo e, agora que o ritmo parece estar definido, está na altura de perceber como poderá ajudar o seu filho.

Psicóloga Clínica Academia de Psicologia da Criança e da Família

A julgar pelas caras sorridentes das crianças na escola que vemos nos anúncios de televisão, até parece que é tudo um mar de rosas. Mas não é. No início do ano letivoto, especialmente, quando houve mudança de escola ou de turma, nem sempre é fácil. E, ainda que estejamos fartos de saber isso porque todos os anos passamos pelo mesmo, ainda não foi desta que deixámos tudo acautelado, planeado e colocado a postos.

Os principais obstáculos
Pode haver quem pense que apenas as crianças que vão pela primeira vez para a escola vão sentir dificuldades de adaptação nos primeiros meses mas, a verdade é que independentemente da idade e de continuarem na mesma escola ou trocarem, as crianças crescem e os desafios que vão encontrar pela frente não são os mesmos que tiveram anteriormente. Em função da idade, ou das contingências da vida, muitos vão ter de enfrentar novas situações. Não deixa de ser positivo, pois a vida “é feita de mudanças” e defrontar-se com novos contextos vai deixá-los melhor preparados para o futuro.
Ainda assim, é importante perceber que nem sempre é um mar de rosas. Como seres humanos que somos temos a fantástica capacidade de ficar preocupados e sofrer por antecipação. Os nossos receios e, por vezes, a própria experiência de vida, vão levar-nos a colocar uma série de questões que mais não farão do que aumentar a ansiedade – “Será que ele vai conseguir adaptar-se? Ele é tão tímido e indefeso. Será que a qualidade do ensino é boa? E as companhias? Ah, as companhias é que estragam tudo!” Mas, há algo que é importante não esquecer: não são só os olhos verdes da mãe e a altura do pai que se transmitem aos filhos. A ansiedade é um autêntico “vírus”. Crianças ansiosas? Deem uma espreitadela aos pais.

Quando os pais são o problema
Muitos querem que os seus filhos sejam os melhores e sentem que falharam como pais se os filhos não se desenvolverem de acordo com o padrão ou modelo que acharam por bem destinar-lhes. Procuram nos filhos características que os distingam dos demais e passam o tempo a compará-los com modelos que consideram referência, estabelecendo uma relação de grande pressão sobre os filhos durante os seus primeiros anos de vida. E coitados dos filhos que não conseguem estar à altura das expetativas dos pais!
Se têm tendência para engordar ou não têm tão boas notas como as do filho do amigo, então a vida deles torna-se um calvário. E a verdade é que os filhos, pelo menos até chegarem à adolescência, não têm qualquer expetativa em relação aos pais. Para eles somos sempre os melhores pais do mundo. Não é verdade que o carro do meu pai é melhor que o do teu?
A intuição e a nossa própria experiência podem não ser suficientes. Por isso, e porque o conhecimento não ocupa lugar, deixamos algumas sugestões para que as avaliem e as apliquem caso julguem que se adequam à vossa situação. O regresso às aulas não tem de ser um drama. Mantenhamo-nos informados e atentos às nossas crianças fornecendo-lhes o porto de abrigo e segurança de que tanto precisam ao mesmo tempo que lhes damos a justa liberdade para que se munam das ferramentas que os vão ajudar ao longo da vida.
Se excetuarmos o nascimento – tudo tão quentinho e tranquilo -, a saída de casa e do carinho dos pais para o mundo da vida em sociedade (i.e. os “outros”) que se verifique com a entrada no jardim de infância, e depois para o primeiro ano e, mais tarde, para o 5º ano, são, provavelmente, alguns dos momentos de rutura mais difíceis para os nossos filhos.

Entrada no primeiro ciclo
Os pais são um referencial de segurança para os filhos. Já o referimos e não nos cansaremos de repetir: pais inseguros transmitem insegurança aos filhos. É normal sentirmos algum receio. Afinal, temos tendência para ver nos nossos filhos uma continuidade de nós mesmos.
O seu sucesso acaba por ser o nosso. Não são assim tão raras as vezes que não os deixamos ser como são e tendemos a condicioná-los à nossa imagem ou àquilo que definimos como sendo o nosso ideal de filho. Não devemos, por isso, insistir nas dificuldades e nas notas esperando que crianças de seis anos tenham desempenhos de crianças mais crescidas. Já sabemos que as notas e testes são uma das grandes novidades das crianças ao entrarem no primeiro ano. Mostremos confiança nas suas capacidades sem comparações com outros, pois cada um tem o seu ritmo de aprendizagem e de amadurecimento. Mas, há outras mudanças: os tempos de estudo e de brincadeira agora têm horários diferenciados. As brincadeiras continuam a ter um espaço fundamental para a sua aprendizagem. Só que agora já não é a professora a promovê-las pois ocorrem de forma espontânea durante o recreio. É-lhes dada maior autonomia, como poderem comprar o seu lanche, mas também mais responsabilidades com os famosos TPC. É natural que os pais queiram ajudar os filhos nos trabalhos de casa, mas quanto mais autónomos forem a fazê-los, mais cedo lhes é incutido o sentido de responsabilidade. O papel dos pais é verificar se estes foram feitos e, já agora, se o material escolar está organizado e bem estimado.
É importante que os pais se preocupem em gerar estímulos positivos que tirem proveito da curiosidade natural da criança. Passeios pelo campo, visitas a livrarias ou a eventos desportivos ou culturais, são ótimas oportunidades para transmitir novos conhecimentos.
Com os mais crescidos, o ideal é agir com naturalidade. Não devemos estar sempre a dizer-lhes “já estás crescido”, “és um homenzinho” ou outras frases semelhantes que tantas vezes ouvimos ou nos foram ditas pelos nossos pais ou familiares. A criança fica ansiosa, com receio de não ser capaz de estar à altura de ser um “homenzinho”. Muito provavelmente nem sabe o que isso é. Pelo contrário, ela precisa de sentir que ainda tem, e vai continuar a ter, o apoio dos pais. Afinal de contas, é uma criança! Deixemos as crianças serem crianças. Há um momento na vida para cada etapa do crescimento. Dar ênfase ao amadurecimento vai no sentido inverso.



Comunicar com os filhos

– Se algum aspeto houvesse a realçar nas sugestões e recomendações sobre o regresso às aulas, a comunicação estaria certamente em lugar cimeiro. Tudo o que falamos e referimos eles registam, mesmo que não nos apercebamos. Até pequenas críticas vão agravar o sentimento de culpa e minar a autoestima. Procure uma aproximação mais carinhosa que enalteça as suas qualidades e promova a confiança e a autoestima. Qualquer coisa como “vais ver que hoje consegues arrumar a mochila mais depressa ainda do que o pai arruma a sua pasta” ou “a conta não está certa mas aposto que foi por pouco, vamos lá investigar os dois por que é que isso aconteceu”, são frases que podem fazer toda a diferença.
– Converse com o seu filho, mesmo que seja durante as refeições ou na hora de deitar. Diga-lhe que é natural ter preocupações e fale-lhe de algumas das suas para que ele sinta que não é uma exceção e que é normal estar preocupado.
– Desdramatize e seja otimista em relação à nova etapa. Aprenda a controlar, caso tenha, os impulsos para falar mal ou ser negativo. É verdade, temos tendência para ficar demasiado focados no que não podemos mudar. Em vez disso, peça ao seu filho para referir as coisas que mais o entusiasmaram no regresso às aulas. Podem ser os sapatos ou a mochila nova, mas de certeza que haverá muitas coisas boas para falar com ele.
– Procure não estar a dizer-lhe “vai tudo correr bem” ou “não te preocupes”. Pense como se sente quando as coisas não lhe estão a correr de feição e vem alguém e diz “não te preocupes, isso passa”. Pois é, é assim que ele se sente também. Incentive-o a procurar soluções em vez de se centrar no aspeto negativo da situação. Está a fornecer-lhe ferramentas que mais tarde serão muito úteis para lidar com as situações menos boas da vida. E não desespere se não conseguir colocar tudo isto em prática. É normal não se ser o pai perfeito ou a mãe perfeitos!

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