Ajude o seu filho a iniciar o ano letivo

Ajude o seu filho a iniciar o ano letivo

O início do ano letivo pode ser uma altura problemática para algumas crianças. Os pais, não só devem tentar contribuir para facilitar a integração, como devem estar atentos a eventuais sinais que denunciem problemas.

Psicóloga Clínica Academia de Psicologia da Criança e da Família

Os nossos filhos crescem tão rápido que chega a ser impressionante. Num ápice, aquela criança pequenina que dependia de nós para tudo, começa a ganhar asas e está prestes a voar. Os nossos pais, avós e amigos, há muito que nos dizem para aproveitarmos bem a infância dos nossos filhos porque o tempo passa muito depressa, mas só quando eles começam a tomar as suas próprias decisões é que nos apercebemos de como este conselho era acertado. E é precisamente neste sentido que nos devemos questionar: Estaremos a aproveitar da melhor forma estes momentos e fases da vida dos nossos filhos ou com esta correria constante dos dias de hoje, nunca temos tempo para nada?

Resultados diferentes exigem atitudes diferentes
Antes de qualquer outra coisa, temos de começar a gerir melhor o nosso tempo. Se os nossos filhos são a melhor coisa do mundo e os amamos incondicionalmente, por que é que muitas vezes não conseguimos um lugar na nossa agenda para estar com eles e partilhar atividades enriquecedoras? Em vez de chegarmos a casa, corrermos para a cozinha para preparar o jantar, começarmos a dar festinhas ao primeiro móvel com pó que apareça pela frente ou preparar o banho para o filho com muitos chamamentos à mistura, deveríamos parar e pensar no que estamos a fazer. É aqui que perdemos a oportunidade de ensinar aos nossos filhos um dos primeiros grandes valores: A responsabilidade.
Os filhos não nascem preguiçosos, muitas vezes são os pais que os tornam assim. Algumas vezes porque querem ter a casa em ordem, outras vezes porque têm pressa, mas a verdade é que raramente nos preocupamos em ensinar a organizar. E se lhe disser que o segredo para uma boa relação entre pais e filhos passa, essencialmente, por estar 15/20 minutos diários (de 24 horas que tem um dia) sem telemóveis ligados, sem interrupções (como se faz durante uma reunião de trabalho), somente com o seu filho a brincar, atento a ele, a conhecê-lo melhor, a dar-lhe o seu amor, a receber amor? O jantar atrasa-se 15 minutos, a ida para a cama também, mas não será o fim do mundo e, de certeza, ficarão todos mais calmos, mais tranquilos, munidos de amor e motivados para os afazeres domésticos e para o stresse do dia a dia.

O que definitivamente NÃO queremos para este ano letivo
A preocupação e a ansiedade estão intimamente ligadas e quando são em excesso, para além de nos prejudicarem, podem contaminar os nossos filhos e toda a família envolvente. É normal tentarmos antecipar e impedir que coisas más aconteçam. Mas, por que razão nos preocupamos tanto? Primeiro, e acima de tudo, tememos o futuro, o que não conhecemos. Sentimo-nos ameaçados, direta ou indiretamente, e é aqui que muitas vezes surge o pensamento catastrófico. É normal preocuparmo-nos com os nossos filhos e ficarmos ansiosos quando pensamos se se vão adaptar bem à escola, aos amigos e aos professores, mas deve ser sempre com peso e medida.

Expetativas demasiado elevadas
Quando investimos demasiado para sermos vistos com uma determinada imagem para os outros, com filhos exemplares, desejando que sejam sempre os melhores (como nós achamos que os outros são), passamos a ter uma expetativa elevada e rígida. Tornamo-nos demasiado vigilantes em relação aos nossos filhos, fazemos comparações constantes e sentimos que falhamos enquanto pais se as coisas não correm na perfeição.
Atualmente, promove-se muito a ideia de que quem tem melhores notas, quem tem mais amigos (mesmo que virtuais), quem veste as melhores roupas ou quem tem a maior casa, é mais feliz. É como se estes critérios fossem, só por si, sinónimo de felicidade já que se depreende que terão também o melhor emprego, a melhor família e, como consequência, todo um melhor futuro. A primeira conclusão que devemos retirar disto é que a comparação é o caminho mais rápido para a infelicidade absoluta.
Por outro lado, ter as melhores notas ou ser o melhor da turma não é sinónimo de ter um futuro feliz, assim como o contrário também se aplica. Se tivermos em conta o exemplo de Albert Einstein, talvez seja mais fácil perceber. Ele tinha um excelente desempenho a matemática e a física, mas nas outras áreas de aprendizagem tinha imensas dificuldades, chegando mesmo a reprovar num exame final. Aquele que todos nós consideramos um verdadeiro génio, era considerado um aluno médio, mas isso não o impediu de se transformar
num dos cientistas mais importantes do séc. XX até aos dias de hoje.

O regresso às aulas, não tem que ser um drama
O regresso às aulas não tem de ser stressante, nem um drama. Recorda-se que quando era criança adorava ir comprar o material novo com os seus pais e folhear os novos manuais com entusiasmo? Todos ficávamos curiosos para saber quem iria ser da nossa turma, contentes por rever os colegas dos quais já tínhamos saudades e, talvez, uma pequena dose de vergonha que facilmente era ultrapassada nos primeiros minutos depois de entrarmos na escola.

Planeamento
Para que tudo corra bem e sem stresse, torna-se fundamental a organização do material escolar e conciliar os horários escolares com as atividades extracurriculares (que não devem ser mais do que duas). E é necessário voltar a ter rotinas em relação à hora de deitar uns dias antes do início das aulas, pois as crianças precisam de dormir bem para garantirem
um bom rendimento escolar, para estarem atentas, concentradas e com boa capacidade de memorização.

Hábitos de estudo desde o início do ano
Estudar é um dos hábitos mais valorizados nas famílias de hoje. A ele está associada a hipótese de um emprego melhor, de ter sucesso na carreira, de aumentar o nível de conhecimento e de se posicionar favoravelmente perante o mundo. No entanto, os resultados mais significativos são obtidos apenas a longo prazo e, por isso, muitas vezes é difícil
manter-se motivado para o estudo. Para conseguir fazê-lo, devemos ser disciplinados, persistentes e organizados desde o início. Prepare o ambiente com o mínimo de estímulos visuais e auditivos, organize o material de estudo, dispondo de todo o material necessário. A par disso, estabeleça prioridades de estudo, começando com tarefas que ele já sabe, aumentando gradualmente a exigência. Desta forma, estará a contribuir para o interesse do seu filho em estudar, em vez de promover a desistência ou a desmotivação. Sugiro ainda que façam uma pausa a cada 50 minutos para um momento de lazer e de interesse da criança/jovem.

Fatores que interferem negativamente com o estudo
O que mais pode comprometer o desempenho académico das crianças e adolescentes é a exigência dos pais, especialmente quando verbalizam que eles são incompetentes, que fazem tudo mal, promovendo um autoconceito negativo em relação às suas capacidades escolares. Outra situação que interfere negativamente é o facto de não haver consequências positivas diante do sucesso pontual da criança, o que favorece a desmotivação para o estudo.
Não se deve deslocar a atenção para uma nota má e desconsiderar a existência das notas boas ou médias. O caso torna-se ainda mais grave quando, perante o bom desempenho, os pais dizem que aquilo “não foi mais do que a obrigação do filho”. Para o ajudar a perceber a dimensão do que estou a tentar explicar, vou pedir-lhe que faça um exercício: Imagine que no seu trabalho, onde você se empenha imenso e perante alguma tarefa que está a fazer, vem de lá o seu chefe e, para além de não valorizar o seu esforço, ainda lhe diz: “Desculpa, mas não fizeste mais do que a tua obrigação!” Como é que se sentiria? Este caso ilustra um contexto em que um bom comportamento teve uma consequência negativa.
Como resultado, pode-se gerar desmotivação, aumento da ansiedade perante as atividades académicas ou, até mesmo, supressão do envolvimento dos estudos.

Como pode ajudar o seu filho na adaptação escolar
O primeiro dia de escola é sempre difícil. É comum haver um período de adaptação ao novo ambiente que é diferente e desconhecido. Até os pais passam por esta fase já que muitas vezes sentem desconforto com a ansiedade e o medo da reação dos seus filhos. Mas a adaptação é isso mesmo, um período dado às crianças e aos pais para se acostumarem à nova rotina.
Se é a primeira vez que o seu filho vai para a escola, é uma boa ideia explicar antes como será o dia a dia. Explique que ele vai iniciar a escola num determinado dia, que o vai levar e buscar todos os dias, mas também que o acompanhará no início. Deixe claro que vai ser muito bom fazer novos amiguinhos, que vai conhecer a professora, a escola e tudo o que poderá fazer lá. Demonstre tranquilidade e transmita segurança no seu discurso, mas não exagere nas expetativas porque não deve querer originar futuras frustrações.

Como lidar com o choro
Pois é, muitas vezes ficamos com o coração partido quando vamos levar os mais pequenos à escola e eles começam a chorar. É comum que algumas crianças chorem ao ver os pais afastarem-se, mas a verdade é que logo depois começam a brincar com os seus colegas e tudo passa. Não dramatize na hora da despedida, seja firme e carinhoso. Esqueça o sentimento de culpa, pois o sentimento de insegurança dos pais é facilmente percebido pelos filhos. Vá trabalhar feliz e faça com que o tempo que têm juntos seja de qualidade.

Muito importante!
Uma família feliz não reage impulsivamente às situações, nem alimenta situações negativas diariamente. Em vez disso, responde sempre à resolução dos problemas com confiança, sem tempestades num copo de água, com bom senso e amor. Orgulhe-se de si e do seu filho, saiba de cor e salteado as suas próprias qualidades e descubra as do seu filho.

Material escolar organizado
Transmita ao seu filho que é importante cuidar do material escolar ao longo do ano. Para além de ser uma atividade que une pais e filhos no início do ano, quando etiquetamos todo o material também estamos a ensinar a relevância da organização e de sermos responsáveis.

Não promova sentimentos de culpa
Na educação de muitos pais atuais, foi incutida a ideia de culpa por tudo o que se fazia de errado. Por outro lado, tudo aquilo que se fazia bem não era referido ou era atribuído à sorte que tivemos e nunca ao nosso empenho, mérito ou competência. Este estilo de educação promove efeitos negativos sobre nós próprios, sobre o outro e sobre a forma como vemos o mundo no geral. Esquecemo-nos que uma das melhores formas de aprender é através dos nossos erros.
Perante um insucesso do nosso filho, devemos continuar na equipa dele, motivando-o e relembrando-o das suas capacidades, em vez de argumentarmos negativamente, como se fossemos de uma equipa oposta.
É ainda importante que as crianças brinquem tanto ou mais do que estudam, e que as escolas sejam mais do que meros locais para estudar. E os bons alunos não têm de ter sempre boas notas!

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